
Foto: Plenária final da Conferência de Santa Marta. (Crédito: Ministerio de Ambiente y Desarrollo Sostenible da Colômbia)
Primeiro Minas Gerais, agora Pernambuco.
Em mais uma tragédia climática destinada a ser esquecida assim que a próxima chegar, oito pessoas morreram por causa de chuvas extremas no estado e na vizinha Paraíba.
A governadora Raquel Lyra decretou estado de emergência e quase 3.000 pessoas precisaram deixar suas casas.
O combo pobreza + cidades pouco resilientes + volumes de chuva extremos resultantes da crise do clima produz mais desgraça no Brasil, e isso antes mesmo da chegada do El Niño que levará seca extrema ao Nordeste onde hoje chove demais e chuva extrema ao Rio Grande do Sul que mal se recuperou de 2024.
Repita. Ah, claro: tem a Amazônia.
Como os cientistas vinham alertando desde a década de 1990, sequências de El Niños fortes turbinados por um oceano Pacífico aquecido pelas nossas emissões de carbono já estão comprometendo a resistência da floresta outrora pluvial.
Como você lerá nesta edição da newsletter, um novo estudo confirma suspeitas de que o combo mortal de desmatamento e mudança do clima empurra grande parte do bioma para a savanização.
Nesta estação seca, se as previsões para o El Niño se confirmarem, poderemos ter mais uma grande estiagem, com mais incêndios florestais.
Como o Rio Grande do Sul, a floresta amazônica e seus moradores ainda não se recuperaram das catástrofes de 2023 e 2024.
O governo federal, aparentemente, não acha que clima e desmatamento estão relacionados, já que quer começar a asfaltar a BR-319 ainda neste ano, agravando ambos.
Em meio ao cenário sombrio, um pequeno fio de esperança reluziu na semana passada no Caribe colombiano: a cidade de Santa Marta sediou a primeira conferência internacional para a transição para longe dos combustíveis fósseis.
Quase 60 países se comprometeram a agir para superar petróleo, gás e carvão, e a França, num lance teatral, mas importante, reciclou metas velhas para dizer que já tem seu mapa do caminho para a eliminação das substâncias que matam em Pernambuco e ameaçam a Amazônia, entre tantos outros lugares.
O sucesso de Santa Marta foi um tanto artificial, já que não havia nada sendo negociado e os países convidados foram justamente os que concordavam com a premissa do encontro – de resto óbvia ululante – de que precisamos pôr um fim aos hidrocarbonetos.
Mas a política é feita de gestos e, se o gesto colombiano for seguido por mais países e investidores, talvez pernambucanos, gaúchos e amazônidas possam temer um pouco menos pelo seu futuro.
Boa leitura.
Conferência de Santa Marta começa a tirar fim dos fósseis do papel
Evento cumpre objetivos cruciais e recoloca ciência no centro dos debates

Muitas questões ainda precisam ser resolvidas, mas a 1ª Conferência Internacional para Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis terminou em Santa Marta, Colômbia, com o recado de que tem bastante gente disposta a lidar com a transformação econômica mais radical da história humana.
Seis dezenas de países se alinharam – finalmente – em torno do objetivo comum de implementar a decisão da COP28 de eliminar gradualmente o petróleo, carvão e o gás fóssil, a partir de três eixos de trabalho, que incluem estímulo à construção de mapas do caminho nacionais, a dependência macroeconômica e sistemas de comércio livres de fósseis.
Tudo isso envolto em algo que nunca deveria ter sido deixado de lado: a consideração ao que diz a ciência.
Os desafios à frente passam por questões cruciais, como a construção de pontes com nações que não foram convidadas, em especial a China, e o fortalecimento da agenda e sua retomada em fóruns multilaterais e nas discussões de comércio exterior e tributação.
É inegável, no entanto, que o encontro em Santa Marta foi histórico e reascendeu as esperanças depois de muitas derrotas. Enquanto isso, o ministro brasileiro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, constrangeu o Brasil na Colômbia ao publicar, nas horas finais do evento, uma proposta de Plano Nacional de Transição Energética que mantém petróleo, gás e carvão mineral na matriz brasileira até 2055, escancarando as contradições que o país ainda precisa resolver internamente.
Combo mortal
Desmatamento com aquecimento global deixa Amazônia cada vez mais próxima da savanização
A Amazônia já perdeu entre 17 e 18% de sua vegetação original. Se a taxa de desmatamento se mantiver constante, o percentual de supressão tende a subir para 22 a 28% da área.
Neste caso, o mundo só precisará aquecer entre 1,5ºC e 1,9ºC para que o ponto de não retorno seja atingido – levando então à savanização de até dois terços da floresta.
É isso que mostra um estudo do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) publicado na última quarta-feira (6) pela revista Nature.
“O desmatamento é mais fácil de controlar. O aquecimento não”, explicou o biólogo Bernardo Flores, que integra a equipe. ”Por isso é urgente manter a Amazônia bem longe desses 22% de supressão da vegetação.”
Fragilidades e riscos
PL dos Minerais Críticos estimula extrativismo sem salvaguardas
Nota Técnica publicada pelo Observatório do Clima na terça-feira (5) alerta para os riscos do projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PL 2780/24 e apensados), aprovado pela Câmara nao dia 6 de maio.
A análise aponta que o texto pode aprofundar o modelo extrativista no país sem garantir benefícios públicos e com ameaças ao meio ambiente e a povos tradicionais.
Entre os principais problemas estão a falta de salvaguardas socioambientais, incentivos sem governança robusta e riscos de incoerência climática.
Clima e alimentação
Mais de 1,2 bilhão de pessoas que dependem da agricultura são afetadas pelo calor extremo
Relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) apresenta uma análise atualizada sobre como o calor extremo, impulsionado pelas mudanças climáticas, está afetando a produção de alimentos, com potencial de piorar a insegurança alimentar.
No Brasil, as ondas de calor em 2023 e 2024 afetaram lavouras de soja, milho e amendoim, além de terem provocado estresse térmico em rebanhos e queda na produtividade do leite.
O estudo também alerta para os impactos sobre os trabalhadores rurais e ressalta que medidas de adaptação e mitigação precisam avançar de forma conjunta, ambiciosa e urgente para conter o agravamento da crise climática e seus efeitos.
BR-319
10 respostas sobre a rodovia no coração da Amazônia e os riscos da pavimentação
A retomada dos projetos de pavimentação do trecho do meio da BR-319, estrada que liga Manaus e Porto Velho, voltou ao centro do debate, mas com alerta ligado.
Amparado por regras de licenciamento ambiental flexibilizadas no fim de 2025, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) lançou editais para a obra sem exigir licenciamento ambiental.
A conduta, questionada judicialmente pelo OC, coloca em risco a floresta amazônica, peça importante na regulação do clima no Brasil e no mundo.
O Observatório do Clima explica em 10 perguntas a história da rodovia e o que está em jogo com as obras.
Na playlist
Andrew Revkin, jornalista científico americano, canta Liberated Carbon.
Observatório do Clima
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