
Presidente da APROBIO defende avanço da canola, organização da cadeia e previsibilidade para ampliar renda no campo e produção de biocombustíveis
“O Brasil não pode continuar perdendo oportunidades por falta de planejamento”, afirma Jerônimo Goergen na Expointer
Esteio (RS), 31 de agosto de 2026 – O Brasil precisa planejar melhor como transformar sua produção agrícola em renda, industrialização e energia renovável, evitando perder oportunidades por falta de previsibilidade e organização da cadeia.
A avaliação é de Jerônimo Goergen, presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO) durante o painel “Campo em Debate – Canola aquece safra de inverno”, realizado nesta segunda-feira (31), na Expointer, em Esteio (RS).
Ao analisar o crescimento da canola e sua conexão com os biocombustíveis, Goergen defendeu que o país avance de um modelo concentrado na comercialização de commodities para uma cadeia que gere mais valor dentro do Brasil.
“Antes tínhamos o Brasil como um produtor de commodities. Você plantava e não se tinha planejamento para o resultado que aquilo teria. Hoje, estamos saindo de um cenário ruim como esse”, afirmou.
Para ele, a canola representa uma oportunidade importante justamente por combinar produção de alimentos, geração de energia e diversificação da renda agrícola. “A canola é um dos produtos no Brasil que nos possibilitam alimento e energia, e não alimento ou energia”, destacou.
Goergen ressaltou ainda que a expansão da cultura não deve ser vista como uma concorrência com o trigo, mas como uma possibilidade de complementar a produção durante o inverno.
“A canola não vem para ocupar o espaço do trigo, mas para complementar. Se planejarmos a cultura de canola juntamente com outras culturas de inverno, elas podem compensar perdas nessa época e até perdas nas culturas de verão”, explicou.
Para que esse crescimento se traduza em retorno financeiro, porém, o presidente da APROBIO considera fundamental conectar desde o início produção, comercialização e indústria.
“A previsibilidade é fundamental para o agronegócio. É importante consolidar a produção da matéria-prima, mas também já conectar isso às empresas cerealistas ou produtoras de biocombustível. Não vejo outro cenário para termos renda efetiva no campo”, afirmou.
Biodiesel pode ampliar demanda e agregar valor
Durante o encontro, Goergen também relacionou o avanço dos biocombustíveis à criação de novas oportunidades para o campo. Segundo ele, cada ponto percentual adicional de biodiesel representa demanda por 1,4 milhão de toneladas de soja, aproximadamente 24 milhões de sacas.
Esse aumento de demanda, segundo Goergen, também ajuda a abrir espaço para outras matérias-primas, como a própria canola. Atualmente, afirmou, a indústria de biodiesel possui capacidade ociosa que poderia ser utilizada para ampliar a produção.
“Temos uma ociosidade na nossa indústria de biodiesel, com capacidade de colocar 7% ou 8% a mais no diesel fóssil, que poderia estar esmagando mais canola, por exemplo”, disse.
A discussão ocorre justamente na semana em que a Lei do Combustível do Futuro completa dois anos. “Eu tenho a satisfação de estar na origem da criação da Lei do Combustível do Futuro.
Porém, se nós não tivermos o cumprimento da lei, como faremos para que os projetos que estamos desenvolvendo se consolidem?”, questionou.
Para ele, a falta de planejamento acaba impedindo o Brasil de aproveitar melhor suas vantagens agrícolas e energéticas. “O Brasil acaba sendo um lugar que perde oportunidades, pois não se planeja, apenas reage”, afirmou.
Qualidade depende de toda a cadeia
Outro ponto abordado por Goergen foi a qualidade do biodiesel. Segundo ele, o debate não deve ficar restrito ao combustível produzido na indústria, mas considerar também etapas como armazenagem, transporte e manuseio.
“Nós não temos um problema de qualidade no biodiesel, mas temos um problema de cadeia, como estocagem, transporte e manuseio. Por isso, estamos trabalhando forte nesses pontos”, explicou.
Goergen destacou ainda a importância dos testes para dar segurança ao avanço da mistura do biodiesel. Ele contou que o país está fazendo o maior programa de testes de biodiesel do mundo para que até fevereiro de 2027, tenha-se o B25 totalmente checado.
Canola, SAF e uma nova oportunidade para o Rio Grande do Sul
O presidente da APROBIO também apontou o combustível sustentável de aviação, o SAF na sigla em inglês, como uma nova frente de demanda para matérias-primas renováveis.
“A partir do ano que vem, o SAF é mandatório. Nós temos que nos preparar para isso, e eu não vejo lugar melhor do que o Rio Grande do Sul para ocupar esse espaço”, disse.
Para Goergen, a consolidação dessas oportunidades depende justamente da integração entre todos os participantes da cadeia. “Nós juntos, criando uma cadeia completa desde o produtor, é o que vai levar adiante o agronegócio brasileiro”, concluiu.
O “Campo em Debate – Canola aquece safra de inverno” reuniu também Adriano Borghetti, presidente da FecoAgro-RS; Luiz Gustavo Floss, diretor de Relações Institucionais da Abrascanola; e Vantuir Scarantti, presidente da Abrascanola.
O encontro contou ainda com depoimentos de Emilio Figer, diretor da Celena Alimentos; Luiz Augusto Dumoncel, vice-presidente de Operações da 3tentos; e Philipp Herbst Minarelli, gerente de Canola e Carinata para o Brasil e Paraguai da Nufarm.
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