PF aponta produção em massa e manipulação de documentos em operações do Master com o BRB

Material apreendido descreve geração de procurações, retirada de datas e alteração de comprovantes; perícia analisou R$ 47,78 bilhões em negócios entre os bancos

13/09/2026 Materialde referência geográfica 07:45 DA REDAÇÃO – ©DIVULGAÇÃO

Documentos apreendidos pela Polícia Federal (PF) revelam como funcionários do Banco Master teriam atuado na produção e alteração de arquivos utilizados para comprovar carteiras de crédito negociadas com o Banco de Brasília (BRB). O material descreve uma estrutura que envolvia desde equipes operacionais e de tecnologia até gerentes e diretores.

As informações fazem parte dos documentos que se tornaram públicos na sexta-feira (11), após a retirada do sigilo das principais investigações relacionadas ao Caso Master.

Entre os arquivos está uma apresentação produzida pelo próprio banco, intitulada “Investigações internas – Banco Master”, encontrada pela PF no acervo digital entregue pelo liquidante da instituição.

Segundo os investigadores, o documento registra procedimentos que iam da extração de dados de clientes à elaboração, assinatura e encaminhamento de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento.

A PF considera o material relevante para a hipótese de que parte das carteiras adquiridas pelo BRB estaria vinculada a operações sem o lastro informado.

Planilha e Word teriam gerado 2,7 mil procurações

Uma das situações descritas envolve dados de clientes do CredCesta, programa de crédito consignado ligado ao Master.

Segundo a investigação, essas informações teriam sido utilizadas para produzir documentos em grande escala destinados à comprovação dos créditos.

O gerente Allan da Silva Machado, conforme o material analisado pela PF, utilizou uma planilha combinada com o recurso de mala direta do Microsoft Word para produzir 2.700 procurações.

A ferramenta permite preencher automaticamente um mesmo modelo com informações diferentes para cada pessoa.

Os arquivos foram armazenados em uma pasta denominada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.

A PF trabalha com a hipótese de que desse conjunto tenham saído procurações posteriormente incluídas em uma amostra de 1.785 contratos encaminhada ao BRB para comprovar créditos apresentados como originados pela Tirreno.

“Tem que dar um jeito”

Outro trecho destacado pelos investigadores envolve comprovantes de transferências relacionados às operações.

Mensagens reproduzidas na apresentação mostram Allan solicitando à funcionária da tesouraria Romy Goerck Gentina Klenquen comprovantes que não exibissem informações capazes de identificar contratos e transações.

“Este aparece o número de contrato… Não quero o número de contrato nem o histórico”, escreveu Allan, segundo o material.

Romy respondeu que seria inviável realizar a alteração em milhares de documentos.

“Então não tem o que fazer. Um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes”, afirmou.

A resposta atribuída ao gerente foi direta:

“Tem que dar um jeito.”

Romy respondeu: “Pois é.”

Para a Polícia Federal, a conversa constitui indício de tentativa de alteração dos documentos. O relatório classifica o episódio como uma “provável emissão de comprovantes de transação manipulados”.

Datas também teriam sido retiradas

A investigação identificou ainda mensagens sobre a retirada de data e horário dos termos de consentimento atribuídos aos clientes.

Em uma das conversas, Allan teria encaminhado um documento a Moacir Lourenço da Silva Junior, funcionário da área de tecnologia, acompanhado da orientação: “Precisamos excluir a data.”

Segundo a linha investigativa da PF, retirar essa informação dificultaria estabelecer quando o cliente efetivamente teria autorizado a operação.

Outro documento analisado apresentava uma diferença de aproximadamente cinco meses entre a data registrada no contrato e a assinatura eletrônica.

O arquivo indicava celebração em 21 de janeiro de 2025, enquanto a assinatura eletrônica teria ocorrido somente em 20 de junho de 2025.

Para os investigadores, discrepâncias desse tipo reforçam a suspeita de que documentos tenham sido produzidos posteriormente para dar suporte a créditos que já haviam sido negociados.

Auditoria encontrou inconsistências

Os problemas também chegaram à Deloitte, responsável pela auditoria externa das carteiras.

Segundo o relatório da PF, diante de questionamentos dos auditores sobre divergências nos contratos, o coordenador de controles Fabrizio Pereira Alencar procurou o diretor Alberto Felix de Oliveira Neto para saber como deveria responder.

“Estão nos cobrando”, escreveu Fabrizio.

Após as cobranças, Alberto Felix teria orientado o funcionário a atribuir as inconsistências a uma falha operacional.

“Esse tem que falar que foi erro operacional na seleção”, respondeu o diretor, conforme a documentação.

Segundo a PF, a conversa ocorreu depois que a Deloitte enviou mensagem ao Master questionando irregularidades encontradas nos documentos apresentados à auditoria.

Os contratos mencionados estariam relacionados à carteira da Tirreno e abrangeriam operações realizadas entre dezembro de 2024 e março de 2025.

Documento foi produzido pelo próprio Master

A apresentação que passou a integrar o material probatório não foi originalmente elaborada pela Polícia Federal.

Segundo a investigação, trata-se de uma apuração interna do próprio Banco Master, criada para registrar comportamentos considerados inadequados entre funcionários e possíveis riscos financeiros, reputacionais e de integridade para a instituição.

O arquivo detalhava pessoas envolvidas, respectivas funções e mensagens trocadas durante os procedimentos.

Também registrava a produção ou alteração de CCBs, procurações, termos de consentimento e comprovantes, além da retirada de datas e das orientações relacionadas aos questionamentos da Deloitte.

Posteriormente, a PF encontrou a apresentação no acervo digital disponibilizado pelo responsável pela liquidação do Master.

Para os investigadores, o documento interno corrobora outros elementos que sustentam a suspeita de que arquivos relacionados às cessões de crédito ao BRB teriam sido produzidos ou modificados dentro do banco.

Perícia analisou R$ 47,78 bilhões

A dimensão financeira da investigação ultrapassa os documentos individuais.

A perícia da Polícia Federal analisou R$ 47,78 bilhões em operações entre Banco Master e BRB. Desse montante, R$ 31,74 bilhões correspondiam a negócios nos quais o Master vendeu carteiras de crédito ao banco público.

Os peritos identificaram uma série de procedimentos que, segundo o laudo, se repetiram durante a relação comercial entre as instituições. Entre eles estão pagamentos realizados antes da conclusão de análises técnicas, pareceres terminados somente depois da liberação dos recursos e operações fracionadas em valores menores.

A investigação também aponta ausência de avaliação ampla e independente sobre os riscos da exposição ao Master, concentração das compras em uma única instituição e continuidade de pagamentos mesmo após alertas sobre problemas financeiros e inconsistências nas carteiras.

Segundo a perícia, a repetição desses procedimentos teria reduzido a eficácia dos mecanismos internos destinados a analisar riscos e controlar a liberação dos recursos.

PF fala em padrão compatível com “gestão fraudulenta”

A avaliação técnica da PF sustenta que os episódios não devem ser considerados isoladamente.

Para os peritos, houve repetição de mecanismos destinados a contornar ou neutralizar controles internos durante as operações.

“A utilização reiterada da forma para encobrir ou neutralizar a substância decisória […] configura, sob a perspectiva técnico-pericial, padrão compatível com gestão fraudulenta, e não apenas com gestão temerária”, afirma o laudo.

A conclusão apresentada pela Polícia Federal é de natureza técnico-pericial e integra uma investigação em andamento. Ela não equivale, por si só, a uma condenação judicial dos dirigentes, funcionários ou demais pessoas citadas.

Com a abertura dos documentos do Caso Master, as mensagens, apresentações internas e laudos passam a expor com maior detalhamento a linha seguida pelos investigadores para determinar como as carteiras foram formadas, quais documentos deram suporte às operações e se os mecanismos de controle do BRB foram deliberadamente contornados durante a movimentação de dezenas de bilhões de reais.

Jornal do Estado MS

Continue sempre bem informado acessando nossos portais:

  • Jornal Dia Dia
    Sua fonte confiável para as melhores notícias e artigos úteis. Fique por dentro dos acontecimentos mais importantes, dicas práticas e conteúdos de qualidade.
  • Jornal Brasil Regional (JBR)
    O pulso do país em tempo real. Notícias nacionais, regionais e internacionais com ética e credibilidade.
  • Castilho Notícias (News)
    O seu diário local com cobertura de Castilho e Região (SP). Jornalismo com credibilidade.
  • Casa e Jardim
    Dicas exclusivas sobre decoração, jardinagem, arquitetura, DIY, reformas e muito mais. Tendências, soluções práticas e ideias criativas para todos os estilos e orçamentos.
  • B10 Brasil
    As principais notícias, análises e insights sobre negócios, economia e soberania nacional. Conectando o Brasil ao mundo com inteligência e estratégia.