
A expressão “brace for impact” – que em português ficaria algo como “posicione-se para o impacto” – é um aviso da aviação utilizado para alertar tripulação e passageiros antes da queda ou pouso de emergência. O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) sobre o chamado overshoot, divulgado na última semana, traz como mensagem principal algo parecido com a expressão usada pelos pilotos.
A humanidade falhou em cumprir o objetivo central da Convenção do Clima da ONU de manter o aquecimento global em 1,5°C e agora precisamos nos posicionar para o impacto que essa ultrapassagem trará. O território no qual entraremos nos próximos anos jamais foi experimentado pela civilização, mas a tragédia ocorrida no Nepal nos dá mostras do que está por vir.
Passadas duas semanas da avalanche catastrófica provocada pelo derretimento de uma geleira no Himalaia, o país asiático – responsável por apenas 0,1% das emissões de gases de efeito estufa no mundo – ainda tenta tirar da lama seus mortos. A estimativa até o momento é de 1.428 mortos e quase 7 mil ainda desaparecidos. Os custos para a reconstrução, anunciados ontem (11) pelo Ministério das Relações Exteriores nepalês, chegam a R$ 24 bilhões.
Força-tarefa do Observatório do Clima se debruçou sobre os planos de governo de seis candidatos
O Brasil entra em uma eleição presidencial que já não comporta promessas vagas nem planos genéricos quando o assunto é a crise climática. Ainda assim, os candidatos ao principal cargo do Executivo parecem não ter compreendido a dimensão do desafio.
Uma análise do Observatório do Clima sobre os planos de governo dos presidenciáveis com mais de 1% nas pesquisas de intenção de voto mostra que apenas um deles apresenta propostas robustas para o clima e o meio ambiente.
A rede do OC avaliou 28 itens da agenda socioambiental nos planos de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema.
Como o papel aceita tudo, as propostas foram analisadas também à luz da atuação pregressa de cada candidato. O resultado mostrou que o programa de Lula é o mais verde entre os seis.
Flávio Bolsonaro apresenta apenas um resultado positivo, enquanto sete de suas propostas são claramente antiambientais. Os demais planos também são incompatíveis com o que a emergência exige.
“A análise mostra que os temas referentes a clima e meio ambiente, de forma mais ampla, recebem uma atenção muito aquém do necessário. A exceção é o plano de governo do atual presidente, no qual o principal ponto de preocupação está na área de energia, o que era esperado. Os planos dos demais candidatos são todos muito mais fracos em relação à agenda ambiental, alguns absolutamente inaceitáveis”, afirma Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Outra consequência nefasta deste aquecimento é a potencialização do fenômeno El Niño, que já tem 97% de chances de ser “super forte” e 75% de possibilidade de atingir um nível nunca antes registrado. Brace for impact.
Tudo isso acontece enquanto o Brasil se afunda em mais uma crise política, “com Supremo, com tudo”, como profetizou o senador Romero Jucá há exatos dez anos (especialmente com o Supremo, no caso atual).
Como consequência, a pauta climática e ambiental, central para o atual momento histórico, tem ficado de fora das discussões. Das discussões e das propostas dos candidatos à Presidência, como mostrou uma análise exclusiva feita pela rede do Observatório do Clima sobre os planos de governo apresentados pelos seis postulantes ao cargo de presidente com mais de 1% nas pesquisas de intenção de votos.
Desde a última eleição, a agenda de clima ficou mais evidente no país, principalmente depois das cheias no Rio Grande do Sul e da seca histórica na Amazônia. Infelizmente, tamanhas tragédias não foram suficientes para sensibilizar a maioria dos candidatos, que se mantém distantes – quando não em negação – da pauta climática.
O relatório do Pnuma, a tragédia no Nepal, as chuvas e secas cada vez mais intensas no Brasil nos mostram que o cenário vai piorar. Um candidato que ignora esta realidade é um candidato que ignora as pessoas. O impacto já é inevitável. A omissão, não.
Boa leitura!

Não sei se volto
Planeta vai ultrapassar 1,5°C e retorno é incerto, diz Pnuma
Ultrapassaremos o limite de 1,5°C de aquecimento global possivelmente no final desta década, segundo relatório do Pnuma. O documento alerta que, mesmo se os países cumprirem integralmente seus planos climáticos e metas adicionais de neutralidade de emissões (que não são nada ambiciosas), a temperatura média pode chegar a 1,8°C acima do nível pré-industrial (1850-1900). Para que tenhamos alguma chance de retorno a 1,5°C neste século, não basta mais zerar emissões líquidas em 2050, como preconiza o Acordo de Paris. As emissões naquele ano terão de ser francamente negativas, e mesmo assim sem garantia de retorno das temperaturas. O corolário disso é que não cabe mais um grama adicional de óleo, gás e carvão na atmosfera. Governos do mundo inteiro, inclusive o do Brasil, estão fingindo que não é com eles.
Boy lixo
El Niño tem 97% de chance de ser muito forte em setembro
O El Niño que se desenvolve no Pacífico deve continuar ganhando força nos próximos meses e pode se tornar um dos episódios mais intensos já registrados. A Noaa estima em 75% a chance de que o fenômeno supere os eventos observados desde 1950, e em 97% a possibilidade de que ele seja muito forte já em setembro. A formação de furacões também chama atenção: a energia acumulada no Nordeste do Pacífico ficou cerca de 50% acima do normal no começo de setembro. Seis das 16 tempestades nomeadas na região se tornaram furacões desde junho.
O remédio é o veneno
Ar-condicionado consome até ⅓ da eletricidade mundial nos horários de pico
A crise do clima está tornando o ar-condicionado indispensável para enfrentar ondas de calor cada vez mais fortes e frequentes. Cerca de 400 milhões de aparelhos foram vendidos no mundo só nos últimos dois anos, fazendo a refrigeração consumir 10% da eletricidade global e até 30% nos horários de pico. No Brasil, foi vendido o recorde de 5,88 milhões de unidades em 2024. Contudo, atender a essa crescente demanda nacional por energia com termelétricas aumentará as emissões. As saídas passam por aparelhos mais eficientes, casas e prédios preparados para o calor, mais árvores e sombra nas cidades e políticas que garantam acesso à refrigeração sem transformar a urgente adaptação em ainda mais aquecimento.
Tragédia anunciada
Deslizamentos no Nepal eram esperados pela Ciência
Em julho passado, cerca de um mês antes da tragédia no Nepal, cientistas publicaram um estudo – tristemente profético – alertando para os riscos de deslizamentos causados pelas mudanças climáticas no país. O OC entrevistou o especialista em diplomacia climática Manjeet Dhakal, um dos autores do trabalho.
Seca com endereço
Quase 1.700 municípios no país já estão sob alto risco de falta d’água
A escassez hídrica deixou de ser um problema só das áreas historicamente secas. Dados do AdaptaBrasil analisados pelo OC mostram que 1.699 municípios estão nas faixas de risco alto ou muito alto de falta d’água em períodos de seca, ou 30,5% do país. O Nordeste concentra os casos mais graves, mas o mapa espalha alertas pelas cinco regiões, em cidades como Brasília (DF), Governador Valadares (MG), Capanema (PA) e Pelotas (RS). A crise do clima pesa nisso tudo ao alterar chuvas, intensificar secas e mexer na disponibilidade de água, mas o tamanho do problema depende também da gestão, dos reservatórios e de outras alternativas de abastecimento. Ou seja, faltar água não é só questão de chover pouco, mas também de como cada cidade se prepara para um clima que já mudou.
Mapa do caminho do inferno
Brasil ficará mais fóssil em 2035, mostra plano decenal do governo
O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2035 prevê um aumento de 18% das emissões do setor e um investimento desproporcional em combustíveis fósseis, incompatíveis com a crise climática atual e necessidade urgente no corte de emissões de gases de efeito estufa. Acesse a análise exclusiva do Observatório do Clima (OC) sobre as cerca de 600 páginas do PDE, apresentado pelo governo federal no início de julho.
Na playlist
Emergency on Planet Earth, do Jamiroquai, que tocou ontem (11) no Rock in Rio.
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